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O Acaso Dominical

O dia era um domingo. Daquele típico. Calor infernal. O relógio marcava 16h e alguns minutos. O local era o centro da cidade. Poucos carros, algumas igrejas protestantes abertas, ouvia-se gritos vindos do posto de gasolina provavelmente originários de pessoas alcoolizadas, ou não, assistindo à um jogo de futebol. Enfim, um domingo como outro qualquer, não fosse pelo fato de um ônibus coletivo estar parado em um cruzamento mesmo com semáforo autorizando sua passagem através daquela luz verde.
Notei que havia algo de errado com o ônibus: não havia motorista. Meu coração começou a bater forte e meus sentidos colocaram o alerta em modo "on". Como bom brasileiro, a primeira coisa que me veio ao pensamento foi: - Assalto! Instintivamente, coloquei a mão no bolso a procura do milagroso celular, com certeza ja vizualizando o número que discaria: 190. Foi aí que percebi alguns olhares ansiosos de dentro do ônibus direcionados para a faixa de pedestres. Procurei a fonte de tanta atenção mas me detive ao perceber que havia dois ou três carros, também parados, ao lado do ônibus e não pude deixar de notar uma certa tranquilidade dos motoristas ao me deparar com um homem ajoelhado bem no meio da faixa de pedestres, com a duas mãos no chão como quem tenta proteger um achado de suma importância. A cor de sua camisa constrastava com a do carro em sua frente dando um aspecto de camuflagem e considerando a distância em que me encontrava, concluí que essa era a razão de não tê-lo percebido de imediato. Ao me aproximar mais da cena, vi que ele conversava com as mãos e pensei: - Deve ser algum tipo de doido desses que a gente encontra por aí, por isso ninguém busina nem chinga o coitado!
Continuei andando em sua direção e quando estava a mais ou menos 20 metros da faixa, vi que o homem era nada mais nada menos do que o motorista do ônibus. Indaguei a mim mesmo: - O que diaboas esse homem está fazendo com as mãos no chão, no meio da rua e com o sinal aberto?! E por que ninguém buzina pra ele?!
De repente ele abriu as mãos e algo deu um pulo pra frente em direção a calçada oposta à que eu estava caminhando. Ele deu mais um incentivo com as mãos e aquilo deu mais alguns pulos para frente até que subiu na calçada e continuou pulando para fora do alcance dos carros. O motorista que agora estava em pé, porém levemente curvado, ergueu-se, deu um sinal de jóia para cima e saiu feliz da vida entrando no ônibus e continuando seu trabalho. Os carros seguiram em frente com os motoristas todos sorrindo e só sobrou eu, vindo na direção oposta do trânsito, sem entender bulhufas do que tinha acabado de acontecer. O que era aquela coisa que pulava? Para quem foi aquele jóia? Não havia prédios nem sobrados na rua! Por que todos saíram sorrindo?
As perguntsa não tardaram a serem respondidas. Chegando no cruzamento, entendi perfeitamente o que havia acontecido. Olhei na diagonal, para a calçada do outro lado da rua e vi, um tanto quanto desengonçado, tentando aprender a nobre arte de voar, um filhote de bem-te-vi. Ele dava alguns pulinhos, batia as asas, saía uns 10 centímetros do chão, caía, dava algumas piadas e voltava à sua árdua aprendizagem. Olhei para cima, tentando achar a razão do "jóia", mas só a encontrei, ou melhor, os encontrei , depois de ouvir esse seu canto tão característico. Lá estava, em cima de um dos fios do poste, os pais do pequeno aventureiro pedestre. Aquele "jóia" tinha sido pra eles. Os dois bem-te-vis, como que encorajando seu filho ao primeiro vôo.
Fiquei parado por 2 minutos, apenas absorvendo o que tinha acabado de se passar: O ônibus parado, os outros motoristas também parados, o motorista do ônibus, o "jóia" e os sorrisos satisfeitos de todos no final feliz.
Depois da parada, segui meu caminho, com aquele sentimento de felicidade tomando conta de mim, o sorriso no rosto e o pensamento: "O que teria acontecido se o bem-te-vi fosse uma pessoa?".

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