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Cotidiano

Estava eu, voltando para casa após mais um dia na faculdade. Tranquilo em meus pensamentos, fiquei esperando o ônibus no ponto. Ele chegou. Entrei. Paguei umas das tarifas mais caras do país (R$2,50) ao motorista e tive a sorte de poder escolher um lugar ao qual estivesse a altura de meu gosto dentro daquele carro com mais de 20 bancos. Havia um vago, no alto, ao lado da janela (gosto de lugares altos perto da janela pois bate um vento gostoso ali). Fui sentar-me, quando de repente, vi que estava molhado (droga). Tinha chovido um pouco antes e alguém havia esquecido de fechar a janela. Muito bem. Fui para o fundo do ônibus e me acomodei.
No decorrer do translado, as pessoas foram entrando e preenchendo os bancos desocupados. As que, como eu, gostam de bancos altos, ao chegarem perto e perceberem o que estava molhado, logo procuravam outro para se sentar. Assim seguiu-se até todos os lugares do ônibus serem preenchidos. Eis que vem o próximo ponto e me sobe um rapaz, de uns 23 anos no máximo, como cara de malvado, ou melhor, de mau humorado, mas que quer mostrar que é mais importante que todo mundo dentro do coletivo. Vem com o queixo alto, olhando pra todo mundo de cima. Logo que percebi o jeito dele, ja pensei no ato: - Esse cara vai sentar naquele banco. Pensado e feito. Ele veio, olhou para um lado, para o outro e pimba, de uma vez. Não me contive. Tive que dar um sorriso daquele bem largo como que dizendo, com o perdão da palavra: - Se fudeu troxa. Sorte minha estar no fundo do ônibus e não ao lado dele já que provavelmente ele me daria um soco se visse a minha cara de satisfação. Mas até aí tudo bem.
Fiquei esperando a reação de quando ele sentisse a água, já que vestia um jeans grosso e uma blusa pólo grossa também. Foi hilário. Pude me deliciar com aquele pulinho que ele deu ao sentir o molhado, daquele igual a gente dá quando senta no vaso e ele está gelado. Aí então ele olhou pro lado, fez uma cara de poucos amigos e ameaçou um esboço do ato de levantar-se mas desistiu. Ja era tarde demais. Todas as pessoas que estavam sentadas perto dele, sabiam que ele havia sentado no molhado e se ele levantasse a situação só ficaria mais embaraçosa. Fez então como o velho e conhecido ditado, "ta na merda, abraça a bosta", se acomodou na cadeira e seguiu viagem, como se nada tivesse acontecido.
O mais marcante, foi a cara de todos nós que estávamos na parte de trás, que sabíamos do molhado. Nos entreolhamos como cúmplices de uma brincadeira de criança, todos morrendo de vontade de dar gargalhadas e começar a tirar sarro dele gritando "sentou no molhado, sentou no molhado! Lalalaalala! Manéé!", mas nos contivemos e gozamos apenas um esboço de sorriso malicioso que só o brasileiro consegue dar em situações como essa e quando cheguei em casa, pensei: - Hoje esses R$2,50 valeram a pena.

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